É o que a PF afirma e o ministro relator transcreve na decisão de 3 mar 2026. São indícios de uma investigação, não uma condenação.
Financeiro
O banco captava dinheiro com CDBs que pagavam muito acima do mercado e aplicava em ativos arriscados e fundos ligados ao próprio grupo.
Nas palavras da decisão: “responsável pela estruturação das fraudes contra o sistema financeiro”.
CDBs que pagavam muito acima do mercado
“o investigado participou da estruturação de modelo de captação de recursos mediante emissão de títulos bancários com remuneração significativamente superior à média de mercado, direcionando os valores obtidos para investimentos em ativos de maior risco e baixa liquidez, inclusive por meio de fundos de investimento em direitos creditórios nos quais o próprio Banco Master figurava como cotista.”
É o coração do caso financeiro: o banco atraía investidores com juros altos e colocava o dinheiro em fundos que ele mesmo controlava, ativos difíceis de vender quando o dinheiro precisasse voltar.
Crimes citados: gestão fraudulenta, indução de investidor em erro. Quem aparece: Daniel Bueno Vorcaro. Ler no STF (PDF), decisão, item 12
Quase R$ 40 bilhões cobertos pelo FGC
“enquanto o Fundo Garantidor de Crédito sangrava para cobrir o rombo bilionário deixado pelo Banco MASTER no mercado financeiro, montante que alcança quase 40 bilhões de reais, DANIEL VORCARO ocultava de seus credores e vítimas mais de 2 bilhões de reais”
O FGC é o fundo, bancado pelos próprios bancos, que devolve até R$ 250 mil por CPF quando uma instituição quebra. O número é da PF, citado na decisão.
Crimes citados: crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro. Quem aparece: Daniel Bueno Vorcaro. Ler no STF (PDF), fls. 151 a 156 da representação da PF
Corrupção no Banco Central
Dois chefes da supervisão bancária do BC revisavam documentos que o Master enviaria ao próprio BC e, segundo a PF, recebiam por isso.
Nas palavras da decisão: “voltado à cooptação de servidores públicos do Banco Central”.
O servidor manda a própria nomeação ao banqueiro
“Parabéns”
Paulo Sérgio envia a Vorcaro a portaria que o nomeia chefe-adjunto de Supervisão Bancária do Banco Central, o setor que fiscalizava o Master. Vorcaro responde com os parabéns.
Crimes citados: corrupção ativa e passiva. Quem aparece: Daniel Bueno Vorcaro, Paulo Sérgio Neves de Souza. Ler no STF (PDF), fl. 11 da representação da PF
O fiscalizado pede ao fiscal que revise o ofício que vai mandar ao fiscal
“DANIEL VORCARO [pede] ao servidor que analise uma minuta de ofício que seria enviada pelo Banco Master ao próprio Departamento do BACEN em que este último exercia a função de Chefe-Adjunto.”
Paulo Sérgio responde com várias sugestões de alteração. Belline Santana, chefe do mesmo departamento, recebeu pedido igual (fl. 31).
Crimes citados: corrupção passiva, violação de sigilo funcional. Quem aparece: Daniel Bueno Vorcaro, Paulo Sérgio Neves de Souza. Ler no STF (PDF), fl. 21 da representação da PF
"Hoje tem que pagar a primeira do Belline"
“Fabiano Zettel: Hoje tem que pagar a primeira do Belline, ok?
DV: OK
DV: Mas veja se Leo pode pagar. E reembolsamos dia seguinte. Bem importante isso.”
Para a PF, pedir que outra pessoa pagasse e ser reembolsada depois servia para o dinheiro não sair direto de Vorcaro para o servidor do BC. Em outra mensagem: "Belline cobrando. Paga?" e a resposta "Claro" (fl. 46).
Crimes citados: corrupção ativa, lavagem de dinheiro. Quem aparece: Fabiano Campos Zettel, Daniel Bueno Vorcaro, Belline Santana, Leonardo Augusto Furtado Palhares. Ler no STF (PDF), fl. 42 da representação da PF
Guia para a viagem do servidor à Disney
“arrumar guia pra essas pessoas”
Ao saber que Paulo Sérgio iria aos parques da Disney e da Universal em Orlando, Vorcaro aciona uma pessoa para providenciar o serviço (fl. 55). A decisão trata isso como mais um indício de corrupção.
Crimes citados: corrupção ativa. Quem aparece: Daniel Bueno Vorcaro, Paulo Sérgio Neves de Souza. Ler no STF (PDF), fl. 54 da representação da PF
Ocultação e lavagem
Segundo a PF, empresas de fachada e contratos de consultoria simulados davam aparência legal aos pagamentos.
Nas palavras da decisão: “com utilização de empresas interpostas”.
Um estudo sobre jovens no mercado financeiro que, para a PF, não existia
“o investigado assinou proposta de prestação de serviços destinada à contratação de BELLINE SANTANA para participação em suposto projeto de elaboração de estudo técnico relacionado à inserção de jovens no mercado financeiro.”
A proposta saiu em nome da Varajo Consultoria, administrada por Leonardo Palhares. Segundo a decisão, era o papel que justificaria os pagamentos ao chefe da supervisão bancária.
Crimes citados: lavagem de dinheiro, corrupção. Quem aparece: Leonardo Augusto Furtado Palhares, Belline Santana, Fabiano Campos Zettel. Ler no STF (PDF), decisão, item 71
"Vai ser 1 mm como normalmente?"
“ANA CLAUDIA: Vai ser 1 mm como normalmente?
DV: Sim”
Em seguida, Ana Claudia junta o comprovante de transferência de R$ 1 milhão para a conta indicada por Mourão, de uma empresa do grupo King.
Crimes citados: lavagem de dinheiro, organização criminosa. Quem aparece: Ana Claudia Queiroz de Paiva, Daniel Bueno Vorcaro, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão. Ler no STF (PDF), fl. 59 da representação da PF
R$ 2,2 bilhões na conta do pai
“foi bloqueada a impressionante quantia de R$ 2.245.235.850,24 [...], valor que estava na conta do genitor de DANIEL VORCARO, HENRIQUE MOURA VORCARO, junto à empresa CBSF DTVM, mais conhecida como REAG.”
O bloqueio ocorreu na 2ª fase da Operação Compliance Zero, em 14/01/2026. Para a PF, mostra que o grupo seguiu escondendo dinheiro depois que Vorcaro foi solto em novembro de 2025.
Crimes citados: lavagem de dinheiro. Quem aparece: Daniel Bueno Vorcaro, Henrique Moura Vorcaro. Ler no STF (PDF), fls. 151 a 156 da representação da PF
Intimidação: "A Turma"
Segundo a PF, um grupo pago mensalmente vigiava ex-funcionários, adversários e jornalistas, e um de seus integrantes teria acessado sistemas da PF e do MPF com senhas de terceiros.
Nas palavras da decisão: “responsável pelo monitoramento ilegal de adversários, jornalistas e autoridades”.
R$ 1 milhão por mês para Mourão repartir
“Ele manda o mensal e eu divido entre a turma. Mando pra eles. 400 divido entre 6. Os meninos mando 75 pra cada, o meu. [...] Ele manda 1 e quando você manda bônus eu divido entre os meninos e a turma”
Mourão, chamado de "Sicário" nas conversas, explica a Vorcaro como dividia o pagamento mensal que, segundo a decisão, chegava por Zettel: uma parte para "a turma", outra para "os meninos" e para ele. Antes, cobrou: "O Fabiano não mandou este mês e a turma está perguntando".
Crimes citados: organização criminosa. Quem aparece: Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, Daniel Bueno Vorcaro, Fabiano Campos Zettel. Ler no STF (PDF), fl. 58 da representação da PF
Ordem para "levantar tudo" de um funcionário e de um chef de cozinha
“O bom de dar sacode no chef de cozinha primeiro. O outro já vai assustar.”
Um funcionário teria gravado Vorcaro sem autorização. Vorcaro manda Mourão "levantar tudo dos dois" (fl. 80), e documentos pessoais do funcionário circulam na conversa (fl. 78).
Crimes citados: coação no curso do processo, organização criminosa. Quem aparece: Daniel Bueno Vorcaro, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão. Ler no STF (PDF), fl. 84 da representação da PF
"Puxa endereço tudo"
“DV: [Empregada] me ameaçando. É mole? Tem que moer [...].
MOURÃO: O que é para fazer?
DV: Puxa endereço tudo”
A conversa é sobre uma empregada doméstica. O nome dela aparece na decisão; aqui foi omitido.
Crimes citados: coação, violação de sigilo. Quem aparece: Daniel Bueno Vorcaro, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão. Ler no STF (PDF), fl. 88 da representação da PF
O plano contra um jornalista
“DV: Tinha que colocar gente seguindo esse cara. Pra pegar tudo dele.
MOURÃO: Vou fazer isto.
[...]
DV: Esse [jornalista] quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto.”
Para o relator, há "fortes indícios" de que Vorcaro mandou forjar um assalto contra um colunista que publicou notícias contrárias a ele. Mourão responde com dois sinais de positivo.
Crimes citados: organização criminosa, coação. Quem aparece: Daniel Bueno Vorcaro, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão. Ler no STF (PDF), fls. 89 e 90 da representação da PF
Senhas de terceiros para entrar em sistemas da PF, do MPF e da Interpol
“o investigado teria obtido acesso indevido aos sistemas da própria Polícia Federal, do Ministério Público Federal, e até mesmo de organismos internacionais, tais como FBI e Interpol”
Segundo a PF, Mourão usava credenciais funcionais de outras pessoas. Também simulava pedidos oficiais de órgãos públicos para tirar conteúdos e perfis das redes.
Crimes citados: violação de sigilo funcional, obstrução de justiça. Quem aparece: Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão. Ler no STF (PDF), fl. 71 da representação da PF
"Projeto DV": influenciadores contra o Banco Central
“a contratação de influencers para a execução do “Projeto DV” foi colocada em prática logo depois, isto é, no mês de dezembro de 2025 e tinha o objetivo de atacar a reputação do Banco Central do Brasil”
A PF diz que a campanha coincidiu com o período em que o TCU dava sinais de que poderia desfazer a liquidação do Master. Esse ponto é apurado no Inq 5035.
Crimes citados: obstrução de justiça. Quem aparece: Daniel Bueno Vorcaro, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão. Ler no STF (PDF), fls. 151 a 153 da representação da PF